FAMA
O carro descia a Rua Nova da Trindade em direcção ao Chiado. Eu a pé no sentido contrário. O condutor abranda, põe a cabeça de fora, ergue o braço e vocifera na minha direcção "Lisboa é que é a maior". Parece, pois, que é do conhecimento geral que eu sou um Oporto Lober.
MALAE
Com o papel na mão perguntei-lhe se malai estaria bem escrito. Ele disse que não. É com E. Pedi-lhe para escrever correctamente. Malae.
Malae é estrangeiro, confirmei. Malae é branco corrigiu ele esfregando a mão na pele do braço. Ela, ao seu lado, disse: malae também significa bonito.
MATAN DELEK
Entram no carro. Abrem os vidros. Pegam nas máquinas fotográficas. Disparam. Tudo lhes passa pelo pequeno LCD onde fixam os olhos. Uma hora de viagem. Uma hora de passeio.
Em casa atiram-se para o sofá. Um em cada sofá. Pegam nas máquinas fotográficas. Ficam surpreeendidos com aquilo que vêem no pequeno LCD. Não tinha reparado nisto, dizem.
O pior cego é aquele que não quer ver.  Na rua diriam. Malae matan delek. Atliu matan delek lakohi hare.
DOK
Como se diz saudade? Hanoin.
Sabes que saudade não tem tradução em qualquer outra língua?
Ah. Mas, sabes, hanoin também quer dizer pensar. 
Gosto da vossa língua. Um homónimo para saudade e pensar. 
Sim.
E como se diz longe?
Dok.
BRANCO #ffffff
PIANO

Ele tem corpo de carregador de pianos. Cara de pianista. É quase trapesista. E artista.
CANÇADO

Dansa é com S porque baila curvilínea. A palavra que dansa não ousa lançar a âncora com um Ç sentado. Cançado, esse sim, deve ser escrito com Ç. Sentado. Em descanço. Fundeado.
Danso cançado.
DOCE

O que é doce, perguntou ele à mãe. Doce é uma coisa boa, como o chocolate, por exemplo. Então o pai é doce, concluiu ele.
FITNESSEX

Tenho 50 anos. Eu sei que pareço mais novo. Mas faço muito exercício. Ginástica. Sobretudo desde que me divorciei. Tenho de me manter em forma. Por causa das amigas coloridas. Percebe? Tenho de ter boa performance quando estou com elas.
Disse ele, durante uma entrevista de emprego.
IMPLICA-ME

- Eu explico.
- Não precisas. Eu percebi. Mas não concordo.
- Não, eu explico melhor.
- Eu já percebi, mas não concordo.
- Não pode ser. Eu volto a explicar...
FARTURA
No café, de pé. Copo na mão esquerda aprumada pelo umbigo. Mão direita no bolso escondendo apenas os dedos.
A minha casa, é uma casa farta. Anuncia em voz decidida.
A minha mulher está farta de mim. Eu estou farto da minha mulher. Eu estou farto dos meus filhos. Os meus filhos estão fartos de mim. A minha mulher está farta dos meus filhos. Os meus filhos estão fartos da minha mulher. Todos fartos da vida.
I DO LI TRAR
Vou-me cansar de ti. Canso-me de toda a gente. Canso-me de todas as mulheres. Não tenho culpa. As pessoas é que deixam de me idolatrar. Não percebo porque deixam de me idolatrar. I-dó-li-trar I-dó-li-trar, cara de amendoá, um segredo colorido, quem está livre, livre está.
LIXO
Este para o amarelo. Passar por água primeiro. Este para o azul. Espalmar com a palma das minhas mãos. Este reutilizar. Será uma flor. Ou um sol. Escolher. Separar. Tratar. Cuidar. Horas de atenção diária. Lixo que se transforma em luxo.
Por isso quando ela disse Tratas-me como lixo ele não percebeu se era elogio ou agradecimento.
MEIAS
O que aconteceu às meias novas que levaste hoje para a escola?
Rasgaram-se todas. E aliás eu preciso é de leggings e não de collants, por isso... 
PIROPO s. m. mineral do grupo das granada, tipicamente cor sanguínea, que é pedra preciosa.
VAIDOSA
De manhã, no pára arranca da cidade, ele buzina e solta piropos pela janela do carro. Escolhe as mulheres mais velhas, mais gordas ou desajeitadas. Também as mais tristes. Atira convites sexuais, elogios eróticos, ameaças carnais. Brejeirices. Para lhes erguer o ego, pensa. Para lhes animar o dia, justifica-se.
Ela, visada, contou às amigas do escritório. Um tipo sem mais nem menos. Uma vergonha. Procurou, em vão, esconder a vaidade que sentia com uma falsa ofensa da dignidade.
4/4
Só às refeições. A acompanhar o jantar. Disse ele sem mentir. A médica perguntou-lhe então. E de uma garrafa de vinho quanto é que bebe? A palavra encheu-lhe a boca. Mas ele engoliu. Optou pela enumeração. Quatro ou cinco copos. Ela percebeu sem perguntar o tamanho do vasilhame.
GLUTAMILTRANSFERASE
A consulta, que não era de rotina apenas por ser a inaugural, estava terminada. Três minutos para apontamentos na ficha nova e um repetimos análises lá para Fevereiro. Cuidado ligeiro com a alimentação. Foi o conselho. Mais duas palavras de circunstância interrompidas pela gama glutamiltranferase. Espere que nem reparei nisto. A coisa demorou-se então um pouco mais. Auscultação, apalpação abdominal com luvas, uso do esfigmomanómetro que havia desaparecido mas foi chamado de urgência. Exame mais longo trouxe espaço para conversa sobre a tosse de ambos e os efeitos do calor tardio. Para falar de frango que os jovens comem em execesso e de perú. Que não é coisa de que se goste. E lamentar que o stress seja tramado para o colestrol.
Repetimos as análise já para definirmos plano para o Natal. Corrigiu entretanto.
No final e perante a mão estendida do paciente a resposta delicada. Desculpe, mas não costumo cumprimentar os meus doentes. É uma questão de saúde pública. 
BATALHAR
Todas as manhãs ele explicava ao filho que tinha de ir trabalhar. O pai vai trabalhar. Nesta magia de aprender palavras algumas ouvem-se já perfeitas. Outras baralhadas. Outras mais perfeitas ainda. O pequeno todas as manhãs expressa o lamento. O pai vai batalhar.
AVÔ
Dantes dávamos aos filhos aquilo que podíamos. Agora dão mais do que podem.
INTEGRIDADE
Não tinha saudades daquilo que nunca tinha tido. Do pai. Do cabelo loiro. De uma ligeira pança. De uma namorada ruiva, nua na sua cama. Dos dois anos a viver no mediterrâneo. Da organização. Da amizade. Da integridade.
CHÁ GELADO
Tinha sede. Queria evitar as cervejas. Como as cerejas umas puxam outras. Como as palavras. Tinha o dia carregado. O sol e o álcool, mesmo que ligeiro, tornariam tudo mais lento. Tinha sede. Não gosta de beber água. Aqueceu água para fazer chá gelado. Menta. Despejou num jarro grande. Enquanto esperava que o chá ficasse gelado abriu uma cerveja. Tinha sede.
SUMOL
Chegam com vestes militares. Vinham da caça. Ele nos entas com os dois adolescentes. Escolhem uma mesa na esplanada e carne para o almoço. Para beber traga uma água das grandes e uma imperial. E olhe, dois sumóis de laranja. Um dos rapazes sacode a franja dos olhos e, sem olhar o pai, corrige. É só um sumol, eu não quero. Ele olha o filho e pergunta. Não queres aproveitar que estás com o pai para beber dessas coisas?
POST IT
A dona escreve não mexer nos papelinhos amarelos e cola-os nos frasquinhos de embelezamento. Não mexer. Ela lê e não mexe. Passa o pano ao largo e sopra entre os frascos. Mas não mexe. Fotografou com o telemóvel para mostrar em casa. Não mexer. Às dezenas. As prateleiras ficam coloridas, mas menos elegantes.
Um dia viu no caixote do lixo um post it diferente. Meio amarrotado. Nesse não estava escrito não mexer. Estás despedida, era o que se lia entre gordura de um qualquer creme de rosto. A dona colava afinal dois post its. Um fora da embalagem. O aviso. Outro dentro. O castigo. Ela não sabia desta sentença. Descobriu-a ali. Já no lixo e sem efeito.
PAPÉIS
Ela não dorme de noite. Tem demasiadas coisas na cabeça. Deita-se cedo ao lado dele mas por volta da uma da manhã está sentada à mesa da sala. Começou  a escrever uma carta para a filha. Vou escrever tudo o que não lhe consigo dizer pessoalmente. Passaram já muitas noites. Muitas coisas estão já nessa carta. Mas faltam tantas noites de insónia.
Ele tem um papel com a lista dos possíveis perigos resultantes da intervenção cirúrgica que se avizinha. Pediu essa lista ao médico. Não sai de casa sem essa bula. Sem esse martírio que lê no metro a caminho do trabalho. E no percurso inverso.
PRISÃO
Ele era uma lésbica aprisionada num belo corpo masculino. Dizia o velho lambendo os lábios e afagando a barba.
INTERIOR
ela levou tudo lá de casa. Saiu em fúria e com estrondo. Sem razão. Levou tudo que cabia na camioneta alugada ou emprestada. Ele não sabe. Ficou surpreendido. Ficou sem livros, música, fotografias de pessoas que são dele. Ficou sem móveis e sem electrodomésticos. Ela quis levar-lhe memórias, apontamentos e imagens.
Ele continua a cismar com o facto de ela lhe ter levado as radiografias, ecografias e outras análises clínicas.
Ela queria esquecê-lo. Mas quis levar com ela as fotografias do interior dele.
EUROPA
Ela a mãe. Ele o pai. Ele, outro, o companheiro da mãe. Ela, outra, a companheira do pai. O bebé, assim falavam os quatro da criança de três anitos estava no carrinho de passeio. Preferiu o carrinho tempo todo. E não comeu sopa. Jantavam todos, assim, na mesa do lado do restaurante Europa.
FÔLEGO
Estou em fôgo. Perdi parte do fôlego.
AMUO
(é só um U que separa o amuar de amar) Há palavras que têm já em si definição tão pomposa que fico amuado e mais não digo. Remeto-me e este enfado em silêncio obstinado.
s. m.
1. Manifestação de enfado que se revela por um silêncio obstinado, e por se evitar de olhar para o seu causador.
2. Zanga passageira.
SON(H)O Um agá mudo no meio do sono. Como se o sonho, só no sono ganhe voz. Como se aquilo que não se diz, só no sonho se possa ouvir.
REBUSCADO
Como uma palavra pode ser perigosa. Ele ouviu "és um rebuscado" e virou costas vociferando. Fim de discussão. Saiu para a cozinha e arrumou a louça, estendeu a roupa enquanto pensava nessa acusação. Sou um rebuscado. Até que nesse frenesim mental de rever a acusação rebuscado rebuscado rebuscado rebuscado rebuscado tropeçou na língua e disse rebuçado. Rebuçado. Será que ela me disse "és um rebuçado" e não "és um rebuscado"? Será que ouvi no meio das coisas a coisa errada? Será que era um doce mimo e não um rude ataque? Naaaaaaa. Eu acho é que sou é um rebuçado rebuscado.
PAI AZUL
O casal falava alto. Pedia ajuda à funcionária da papelaria para comprar pincéis e tintas. Para a neta. Tem sete anos e é muito criativa. Dizia o avô. A avó falava um pouco mais alto e usava mais palavras. O pai dela morreu tinha ela 3 anos. Dias depois pintou um retrato dele. Todo azul. Só azul. Ainda está lá na parede da sala. Ela não pára de pintar e desenhar. E pela avó íamos sabendo um pouco mais. Que vivia agora com eles e que era esperta e feliz e muito talentosa e que gostava muito deles e que falava muito do pai. O avô procurava fotografias no telemóvel. Herdou o talento do pai. Está a ver? A funcionária, já do outro lado do balcão, respondeu que não, não conheceu o homem que via no pequeno ecrã. Ao ver a segunda fotografia respondeu com delicadeza. Muito bonita a vossa neta. E criativa, sublinhou a avó. Como o pai, suspirou o avô.
DISTANTE dizer distante, diz tanto.
CARNE 
Reclamava, na loja do cidadão, um cidadão, que a loja é para eles, que a EDP teria de pagar uns quantos quilos de carne que estavam no congelador. A carne estragou-se porque a EDP cortou a electricidade. Sim, ele não tinha pago a conta, mas tinha pago a carne.
METADONA No supermercado do senhor Jerónimo o povo junta-se à porta antes das 9. Por causa dos frescos. Pouco depois das 9 há já gente aviada e a passar o cartão na ranhura ou, se for de chip, a inseri-lo na ranhura. A mulher muito magra chegou à caixa número 5 já lá estavam seis clientes satisfeitos. Suja e seca, com a idade apagada do corpo, segurava nas mãos uma garrafa de cerveja. A visita matinal ao supermercado resultava na compra de litro de cerveja para a viagem. Precisava das duas mãos para a carregar. Chegada à fila pediu a todos que a deixassem passar. Estava atrasada para a metadona.
DEFERIDO
ODIREFED. Nunca consegui atribuir à palavra deferido outro sentido que não o reprovado. Censurado. Recusado. Talvez porque seja tão burocrata. A palavra. Talvez porque nela se perceba um ferido. É uma palavra de ferido. Alguém maltratado. Se leio 'deferido', duvido. Foi despachado favoravelmente ou foi despachado mortalmente?
MOHS
Sou um diamante. Sinto-me talco. Eu, se mineral, não resisto ao risco.
PRESILHA 
A puérpera pegou no telefone assim que saiu a enfermeira. Que era urgente ligar à mulher das cortinas do quarto do bebé. Ela, a mulher das cortinas, já tinha telefonado umas cinco vezes mas ela, a puérpera, não tinha atendido porque estava a ser examinada. Suspiro. Era preciso dizer à mulher das cortinas que a bainha tinha de ser do tamanho do barão e as riscas tinham de ficar na horizontal. Não na vertical. Na bainha. A puérpera ordenou: Liga já. E gemeu ligeiramente.
Mas havia outras fitas e cordões, além do umbilical, para cortar. Presilhas? Mas o que são presilhas? Entoou a puérpera na conversa seguinte.Eu quero é saber da bainha. Eu nunca pedi presilhas. Estou a ver que o Frederico não terá as cortinas no quarto a tempo.
HUMOR
Albugíneo. Essencial para ver.
Humor albugíneo. Branco. Consistente.
Não é um estado de espírito. É líquido. Humor é o fluído que enche a câmara do globo ocular. 
Ver com humor.
(DISNEY) a babysitter (substituta) chegou (em emergência) já com o pequeno (18 meses) a dormir. Ela (19 anos) ficaria 3 ou 10 horas. Não sabia (não sabíamos) se o alarme (de parto) era falso. Perto da uma da manhã (e da espera), chegado a casa sem fumo branco, desliguei a televisão. A tv sintonizada (pela pequena) no Disney Channel. Aos 19, sábado à noite. A babysitter. Formação profissional.
38
nem 8 nem 80. Nem 88. Nem tão pouco 33. Um 8 antecedido por meio 8.
8 e meio. Meio 8 e um 8. Feito num oito. E meio.
NOVE um novo nove em cada ano. Um nove que em mim adiciona apenas um. Mais um sobre o que já está. Um novo nove que não deixa novo. Noves fora nada.
MUDAR se consultar a palavra mudar no dicionário on line da Porto Editora, o infopedia, saberá que mudar a água às azeitonas significa, de modo coloquial, urinar. No dicionário online da Priberam não associam urina a esta pesquisa. Mas temos informação que no dia 1 de Março de 2011 a palavra mudar foi consultada 1295 vezes. E que duas pessoas gostam da palavra.
MESMO 
A carne de vaca que é mesmo de vaca. O sumo de goiaba que é mesmo de goiaba. O de laranja também é mesmo de laranja. A polpa de tomate é mesmo produzida com tomates. A sobremesa de morango que sabe mesmo a morango. Os produtos portugueses que são mesmo produzidos em Portugal.
Hoje tenho mesmo de trabalhar.
Tenho mesmo que ir.
ENLOUQUECER
Sinto que posso enlouquecer a qualquer momento.
A qualquer momento sinto que posso enlouquecer.
Posso enlouquecer a qualquer momento. Sinto.
Enlouquecer a qualquer momento. Sinto que posso.
Sinto que a qualquer momento posso enlouquecer.
Enlouquecer. Sinto que posso. Qualquer momento.
Sinto. Qualquer momento. Posso enlouquecer.
Qualquer momento. Sinto.
Enlouquecer.
Enlouquecer.
PAI todo o dia, todos os dias. Sem dia que mereça ser mais dia.
PORTO Mais difícil. Mais fácil. Mais pequena. Maior. Muito maior. Menos gente. Mais pessoas. Mais pronúncia. Sotaque vincado pelo orgulho. Braços mais duros. Mais acolhedores. Mais sabor. Mais cor mesmo se sem luz. Cinzento azul.
GERAÇÃO Gerar. Acção. Gera ação. *
dar vida ou existência a; conceber + ato ou efeito de agir.**
* na rua
** na infopedia
INQUÉRITO
Se o amo? gosto muito dele, sim.
Se gosto da minha vida? é confortável e segura e tem momentos bons.
Se sou feliz?... Não sou infeliz.
Sorriu, penteando a franja que lhe escorregava para a frente dos olhos. Verdes.
NAHULCM a mensagem é o meio
AMARELO Há gostos para tudo. Se assim não fosse o que seria do amarelo. Ouvi isto tantas vezes sem nunca perceber o sentido. Que defeito terá o amarelo?
AMARELO. Tem AMAR e tem MAR e tem ELO. Podemos encontrar MAE   REAL  RAMA  ARMA. Mas também MELOA  MELRO  AROMA  MORAL .
Por todo, sem perder um grão de cor, transforma-se em O ALARME ou O MAL ERA ou LER A MAO
Peguemos nela. ELA RAMO. ELA MORA. ELA AMOR.
ELA MORA num prédio AMARELO.
PINGUIM um saco plástico do mini mercado Pinguim Verde no antebraço direito. Usava-o para guardar moedas e lenços de papel usados. Na mão direita segurava o telemóvel. Cinzento como toda a roupa que usava. As botas eram verdes. A tiracolo, sobre a esquerda, uma mala de senhora preta. De lá tirava os lenços de papel. Assoava-se com a mão esquerda.
FACTO Farto do fato.
SĂNĂTATE a pedinte (romena) sentada no chão entoou uma qualquer prece apontando para o meu filho. A cada pequena vénia repetia "sanatate". Depois despejou as duas moedas no bolso e voltou a esticar o copo de gelado vazio murmurando algo diferente a quem passava.
CUSTOS Foi despedido. Tem quase 60 anos. Trabalha ali há duas décadas. A política de redução de custos da empresa levou-o ao desemprego. Ouviu, surpreendido, a notícia. Não aceitou o acordo proposto. Está à espera de uma outra justiça. Todos os dias ocupa o seu lugar das 9 às 18 horas. Não tem qualquer tarefa. Fica ali sentado. Ao seu lado está o seu substituto a receber formação. A aprender com outros, e perante o seu silêncio, a fazer o que ele fazia. A aprender ser ele. Que foi despedido.
BERNARD "As coisas desprenderam-se de mim. Eu prolonguei certos desejos; eu perdi amigos, alguns para a morte. Outros pela incapacidade de atravessar a rua." Disse Bernard em As Ondas, de Virginia Woolf
DANSAR A palavra dansar fica melhor com s (que serpenteia e tem na sua forma movimento) do que com ç (que está sentado e ancorado). Não é um erro ortográfico. É uma justiça de significado. E danso por influência da Sophia de Mello Breyner Andresen. Li, há muito tempo, numa entrevista que ela escrevia dansar e não dançar. Mas os revisores ou os editores dos seus livros corrigiam sempre. Não há liberdade para tanta poesia. E escrever dansar, só a palavra assim escrita, é já um poema.
AFECTO não consigo deixar de estranhar as novas palavras. Afecto perdeu o c de coração. Actor perdeu também o coração. Faccioso mantém-se com duplo c. Anticoncepcional perdeu o p de pila. Mas corrupção mantém-se completa. O acordo ortográfico deixa-me zangado com algumas palavras.
INÍCIO ao escrever a palavra início no google o primeiro site sugerido é a do ministério das finanças. É o início. É o nosso início. Somos contribuintes. É tudo.